Em uma semana, polícia do Rio prende 33 em ações para sufocar braço financeiro das milícias

A Polícia Civil do Rio prendeu em uma semana ao menos 33 suspeitos em operações deflagradas para sufocar o braço financeiro das milícias que atuam no estado.
Entre as atividades na mira dos agentes está a exploração de comércios irregulares e transportes alternativos.
Na quarta-feira (21), a polícia interditou oito farmácias, apreendeu milhares de medicamentos de uso controlado e prendeu dez pessoas que seriam responsáveis pelos estabelecimentos.
Segundo as investigações, as farmácias são utilizadas pela milícia liderada por Wellington da Silva Braga, o Ecko, para gerar lucro e lavar dinheiro da organização criminosa.
Essa rede de farmácias conta com dezenas de unidades na Região Metropolitana do Rio e em bairros como Campo Grande, Santa Cruz, Cosmos, Paciência, Senador Camará e Madureira.
Os acusados responderão por crimes contra a saúde pública, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro.
A operação foi realizada por agentes da Decon (Delegacia do Consumidor) e das delegacias do DGPE (Departamento Geral de Polícia Especializada) e contou com fiscais do CRF (Conselho Regional de Farmácia).
O conselho afirma ter constatado uma série de irregularidades, como documentos com suspeita de fraude, ausência de licenciamento sanitário, medicamentos sujeitos a controle especial sem procedência confirmada e estabelecimentos funcionando clandestinamente sem inscrição.
O CRF também relata que os grupos paramilitares ameaçam e impedem as atividades de fiscalização nessas farmácias.
No último dia 16, em outra operação que visou o braço econômico da milícia de Ecko, a maior do estado, os agentes já haviam estourado uma farmácia em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Nessa ação, a polícia prendeu 18 suspeitos e interditou, além da farmácia, um shopping de roupas falsificadas, um depósito de gás, um restaurante utilizado para a comercialização de cestas básicas e dois provedores de internet com sinal furtado de TV por assinatura, com milhares de assinantes.
A Polícia Civil informou que prendeu o responsável do restaurante em flagrante por corrupção ativa porque ele teria tentado subornar os agentes.
Nesta quinta-feira (22), a corporação prendeu mais cinco homens que fariam parte da milícia comandada por Ecko, em Itaguaí e Seropédica.
Entre os crimes investigados estão as cobranças irregulares de taxas de segurança e de moradia, instalações de centrais clandestinas de TV a cabo (“gatonet”), armazenamento e comércio irregular de botijões de gás e água, exploração e construções irregulares e outros crimes ambientais.
A investigação também mira a comercialização de produtos falsificados, contrabando, descaminho, transporte alternativo irregular e estabelecimentos comerciais explorados pela milícia e utilizados para lavagem de dinheiro.
Ainda na quarta (21), a polícia apreendeu 168 mil aparelhos de TV box importados de forma irregular no porto de Itaguaí. Os equipamentos são considerados os novos “gatonet” pelos investigadores, porque são utilizados para transmitir sinais piratas de canais de televisão.
O coordenador da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais), delegado Fabrício Oliveira, estima que a apreensão tenha gerado um prejuízo superior a R$ 100 milhões para as milícias que atuam na região.
No mesmo dia, outra operação foi deflagrada para apreender veículos usados como transportes alternativos explorados pela milícia de Ecko em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
Desde que Cláudio Castro (PSC) assumiu como governador interino e trocou postos de chefia na corporação, as operações contra as milícias se intensificaram.
Na semana passada, 17 suspeitos de integrar o grupo de Ecko foram mortos em um intervalo de 24 horas em ações da Polícia Civil.
Na ocasião, o subsecretário operacional da corporação, Rodrigo Oliveira, afirmou que não basta prender milicianos e que é necessário atingir suas fontes de renda.
“Nada adianta a gente tirar o miliciano se não quebrar o braço financeiro da quadrilha. Ela vai continuar existindo. Então tem que trabalhar nas duas frentes, na prisão dos milicianos e quebrando a estrutura financeira do negócio”, disse.
A atual gestão tem trabalhado em cima do sistema que intitulou como O&A (Operação e Asfixia). Após lançar mão de ações de inteligência, a polícia realiza uma operação pontual contra o grupo criminoso.
Em seguida, delegacias especializadas fazem operações na região onde a milícia atua, nas quais os agentes permanecem por dias sufocando a entrada de dinheiro na organização criminosa.
Historicamente, os grupos paramilitares, formados geralmente por quadros das polícias Militar e Civil e dos Bombeiros, obtiveram lucros em cima da extorsão dos moradores de comunidades por meio da venda de segurança, de gás e do acesso à TV por assinatura.
Nos últimos anos, no entanto, estenderam seus tentáculos e hoje cobram por consultas em hospitais públicos e até para enterrar o lixo em aterros construídos por eles.
A venda de imóveis irregulares, como os dois prédios que caíram em abril de 2019 na comunidade da Muzema, na zona oeste da capital, representa outra perna da sustentação financeira da organização criminosa.
Um estudo inédito divulgado nesta segunda-feira (19) mostrou que em 2019 as milícias já controlavam 41 de 161 bairros do Rio, o que corresponde a 57,5% da superfície territorial da cidade. Mais de dois milhões de moradores estão sob o domínio dos milicianos.
Isso significa que as milícias, que em sua configuração atual começaram a se desenvolver nos anos 2000, já ultrapassam em controle territorial facções do tráfico de drogas estabelecidas a partir da década de 1980, como o CV (Comando Vermelho), o ADA (Amigos dos Amigos) e o TCP (Terceiro Comando Puro).
Nos últimos anos, alguns grupos paramilitares inclusive se associaram ao TCP.

Do Notícias ao Minuto

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