O último ônibus Marcopolo é produzido em Xerém. A fábrica tinha 800 empregados. Reprodução

Fim da linha: fábrica de ônibus da Marcopolo em Xerém fecha as portas

Com queda nas vendas, companhia vai concentrar produção em unidades do ES e do RS


Um importante capítulo da história da industrialização do Brasil chega ao ponto final. No dia 30, a Marcopolo, maior fabricante de ônibus do país, fechará as portas de sua unidade em Xerém, distrito de Duque de Caxias.
Com a transferência das linhas para Caxias do Sul (RS) e São Mateus (ES), encerra-se a produção de veículos nas instalações da antiga Fábrica Nacional de Motores — a mesma FNM criada por Getúlio Vargas nos anos 40 para servir como modelo de desenvolvimento para o país.
Há dois meses, o maquinário de Xerém começou a ser levado para as outras fábricas da Marcopolo, e a mudança será concluída até a semana que vem. A maioria dos 800 empregados será demitida e os restantes serão remanejados para São Mateus.
É o fim melancólico de uma unidade que, em 2014, produzia 25 veículos por dia e estava em vias de se tornar “a maior fábrica de ônibus urbanos do mundo”. Houve tempo em que o lucro de Xerém bancava os prejuízos dados pelas fábricas da Marcopolo na Rússia e em Portugal.
O último ônibus Marcopolo é produzido em Xerém, Duque de Caxias. A fábrica tinha 800 empregados. Foto: Reprodução
O último ônibus Marcopolo é produzido em Xerém, Duque de Caxias. A fábrica tinha 800 empregados. Foto: Reprodução

Efeito coronavírus
O que mais pesou para o fechamento, segundo a Marcopolo, foi a queda de demanda por ônibus em razão da pandemia.
“Em função dessa queda, sem data ou previsão de retomada em curto prazo, a Marcopolo decidiu pelo fechamento da unidade e a transferência das linhas de produção para as suas outras plantas em Caxias do Sul e São Mateus, para otimização das operações, redução de custos, maior eficiência e produtividade”, diz a assessoria de comunicação da empresa.
No primeiro semestre, o lucro líquido da Marcopolo desabou 89,8%, para R$ 12 milhões, em razão do tombo nas vendas. Entre abril e junho, a produção do grupo no Brasil caiu 45,7%, frente ao mesmo período de 2019.
Um ônibus escolar foi o último veículo produzido pela Marcopolo em Xerém, encerrando as atividades da unidadeFoto: Reproduçãp
Um ônibus escolar foi o último veículo produzido pela Marcopolo em Xerém, encerrando as atividades da unidade Foto: Reprodução
Xerém foi, até o fim, a principal unidade de fabricação de carrocerias de ônibus urbanos da Marcopolo. Nos oito primeiros meses de 2020, produziu 2.201 ônibus, do total de 5.875 unidades fabricadas pela empresa no Brasil.
Destacava-se pela localização no pé da Serra de Petrópolis, com fácil acesso a Rio, Minas Gerais e São Paulo. Além disso, está a apenas 170km da fábrica da VW Caminhões e Ônibus, principal fornecedora de chassis.
— Havia ainda mão de obra muito proativa, uma equipe que vestia a camisa e era capaz de façanhas — lembra Roberto Andrade Soares, que foi coordenador de logística da empresa até 2015.
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De acordo com a Marcopolo, contudo, “as unidades de Caxias do Sul e São Mateus são mais modernas, têm capacidade instalada para absorver toda a produção de Xerém”.
O terreno pertence à Marcopolo, mas seu destino ainda não foi decidido. Nesses tempos em que o setor industrial representa apenas 11% da atividade econômica do Brasil, as perspectivas para o local parecem sombrias. Recentemente, porém, Washington Reis, prefeito de Duque de Caxias, afirmou que uma empresa chinesa de ônibus elétricos poderá ocupar o espaço. Haverá futuro para a histórica fábrica?

FNM nasceu como modelo de industrialização
Governo Getúlio Vargas, 1939. O Brasil se lançava em um grande processo de industrialização. Nesse espírito, o então coronel Antônio Guedes Muniz propôs a construção de uma fábrica de motores de avião. Assim, em 1942, foi fundada a Fábrica Nacional de Motores, em Xerém.
A ambição de Muniz era transformar “açougueiros, sapateiros e empregados de balcão em operários de uma indústria de precisão”. A “Cidade dos Motores” seria autossuficiente, com comércio, atendimento médico, lazer e vilas operárias.
Quando saiu o primeiro avião com motor FNM-Wright, em 1946, a guerra já havia acabado e Getúlio fora deposto. O novo presidente, Eurico Gaspar Dutra, mandou suspender a produção. Para salvar a FNM, Muniz (alçado a brigadeiro) pôs a fábrica para fazer até eletrodomésticos.
Só em 1949 é que Xerém encontrou seu rumo: foi a primeira empresa a fabricar caminhões no Brasil. Inicialmente, tinham tecnologia Isotta Fraschini. Com a chegada dos modelos projetados pela estatal italiana Alfa Romeo, a nacionalização dos FNM (vulgo “Fenemê”) aumentou. Era o caminhão pesado mais vendido no país.
Em 1960, a FNM lançou-se na produção de um sedã de luxo, o FNM-2000 JK. Com o golpe militar, o novo governo fez uma intervenção e, em 1968, a velha parceira Alfa Romeo assumiu o controle da FNM.
Em 1977, a fábrica foi vendida à Fiat — que continuou a fazer os caminhões por mais dois anos e fechou as portas da pioneira FNM.
Foi preciso que a mão do estado interferisse novamente, desta vez, por obra do governador Leonel Brizola, que salvou da falência a fábrica de carrocerias de ônibus Ciferal, em Ramos.
Em 1992, a linha de produção da Ciferal foi transferida para as antigas instalações da FNM. Em 2001, a empresa foi adquirida por sua maior concorrente, a gaúcha Marcopolo. Agora, virou história.

Fonte: Jason Vogel/ O Globo

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