Sambistas contam as angústias de um ano sem desfiles, barracões parados e trabalhadores sem renda

Quando tudo se acabou na última Quarta-Feira de Cinzas, o planeta estava sob tensão. Mas nem o sambista cético imaginaria que o ciclo que dá forma ao carnaval demoraria tanto a recomeçar. Os desfiles na Sapucaí em julho seriam um consolo, embora, para muitos, já não passassem de ilusão. Sem trégua da pandemia e em meio à morosidade da vacinação, o anúncio de que a folia fora de época se inviabilizaria veio como a pá de cal. Em 2021, os desfiles que são o clímax de uma expressão cultural e que não sucumbiram sequer à Segunda Guerra Mundial vão, pela primeira vez, silenciar. E o janeiro, que já andava atípico no Rio — sem ensaios, sem ritmo frenético nos barracões, nem a magia tomando os ares —, agora confirma que, por enquanto, resta aguentar a saudade.
Para a maioria dos que fazem dessa festa sua vida, não havia como ser diferente. Em outubro, quando foi autorizada a reabertura das quadras, parte das escolas retomou os eventos. Diante do novo agravamento da pandemia, voltou tudo ao compasso de espera. Um dos mestres da bateria do Salgueiro, Gustavo Oliveira diz que não fazia sentido pôr em perigo pessoas que o viram nascer, como os “coroas” do tarol — instrumento que marca a identidade da Furiosa. O compositor Lequinho, da Mangueira, lembra que não se faz samba separado, sem contato, abraço e calor humano. E nessas horas, como não pensar na velha guarda e nas tias baianas, a maior parte grupo de risco para a Covid-19? Como não resguardar senhores como seu José Honorato, de 70 anos que se confundem com a história da Paraíso do Tuiuti?
— É motivo de reflexão que o carnaval,quase sempre associado ao descompromisso e ao desvario, tenha assumido uma postura pública coerente frente à pandemia. Lamentamos o desemprego dos trabalhadores, que vão precisar de auxílio. Mas, juntos, faremos do próximo carnaval o maior, o da vitória da vida sobre a morte — afirma o carnavalesco Leandro Vieira, da Mangueira.
Enquanto permaneciam as incertezas, algumas escolas chegaram a iniciar, este mês, as disputas de samba-enredo, sem público e com transmissão pela internet. Logo que o prefeito Eduardo Paes descartou o desfile de julho, quase todas suspenderam a programação. E sob o impacto da notícia, na quadra da Portela vazia, a porta-bandeira Lucinha Nobre sem mestre-sala, Marlon Lamar, traduzia o turbilhão vivido pelo sambista. Oriundo de São Paulo, ele voltou à casa da família. Na última sexta-feira, foi às redes sociais para um desabafo sobre como seguiria na faculdade de Medicina sem a renda que provém de seu bailado.
— Tive que me adaptar a muitas mudanças, como dançar com distanciamento. Mas a pior foi perder o contato frequente com meu mestre-sala — diz Lucinha. —Eu era uma entusiasta do carnaval em julho. No entanto, apesar de ser trabalho para muitos, para outros tantos o carnaval é alegria. E não temos muito o que festejar. Agora, é pensar no próximo desfile como renascimento. Como diz a música, o samba agoniza, mas não morre.

Fantasias e alegorias desenhadas
Apesar da melancolia da Sapucaí sem samba, sem povo e sem brilho, as escolas de samba do Grupo Especial haviam lançado seus enredos. Os carnavalescos que assinam os espetáculos da Sapucaí estavam, muitos deles, com os desenhos das fantasias e das alegorias prontos, às vezes feitos em casa, na quarentena. E os mais apaixonados debatiam os sambas concorrentes favoritos a ganhar a Avenida. Nos barracões, porém, antes de o Ministério Público interditar a Cidade do Samba e de o desfile de julho ser cancelado, as engrenagens da folia já giravam muito lentamente.
Na Grande Rio, no começo de janeiro, seu Ilson Ribeiro, um velho diretor de harmonia, trabalhava sozinho num dos andares do galpão, separando o material dos figurinos de 2020 para reciclagem. Já os carros alegóricos do ano passado continuavam nos exatos lugares onde estavam à véspera do último desfile, como se o tempo tivesse parado.
— Antigamente, eu sonhava repetidamente que eu dormia e perdia o carnaval. Parece que esse pesadelo se materializou. É uma situação dolorosa, fora do que se podia imaginar. Mas essa angústia tem se tornado um desejo de transformação, de experimentar ainda mais — afirma Leonardo Bora, carnavalesco da Grande Rio junto com Gabriel Haddad. — E é positivo que as escolas, neste período, não tenham se emudecido. Basta ver os enredos que tinham sido propostos, muito potentes e urgentes — acrescenta ele, que prepara um próximo desfile sobre Exu.
Tanto na tricolor de Duque de Caxias quanto na Imperatriz, a hora era de olhar para o almoxarifado, para catalogar cada produto, uma vez que os tempos não são de fartura. Era ao que estava dedicado, na verde e branca de Ramos, Bruno de Oliveira, figurinista e assistente da professora Rosa Magalhães no enredo sobre outro mestre, o carnavalesco Arlindo Rodrigues. Esse sonho, no entanto, terá que esperar.
Assim como Tiago Martins, que estrearia como carnavalesco do Grupo Especial, na São Clemente, precisará aguardar pelo grande momento. Da mesma forma que a Vila Isabel terá que conter a ansiedade para homenagear Martinho da Vila. E que a atual campeã, a Viradouro, terá que se segurar antes de explodir de emoção com seu tema “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”, sobre o carnaval de 1919, após a epidemia da gripe espanhola.
Luiz Carlos Irineu, o Orelha, como é conhecido, na sala da quadra do Salgueiro onde ficam guardados os instrumentos da bateria: ele e o responsável pela manutenção das peçasLuiz Carlos Irineu, o Orelha, como é conhecido, na sala da quadra do Salgueiro onde ficam guardados os instrumentos da bateria: ele e o responsável pela manutenção das peças Foto: Ana Branco / Agência O GloboNa escola, para garantir renda a parte dos funcionários, antes da interdição da Cidade do Samba dez pessoas trabalhavam na confecção dos protótipos das fantasias. E os carnavalescos Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon tinham experimentado um gostinho do que pode representar a próxima folia.
— Ao buscarmos um de nossos fornecedores, a vendedora nos atendeu dizendo, emocionada, não acreditar que estava diante de tecidos coloridos. Há meses, ela só vendia cores tristes, para máscaras e sacos fúnebres — relata Marcus.
É essa capacidade transformadora que vai continuar movendo as crianças do projeto social da Unidos da Tijuca, que não interromperão suas atividades no Morro do Borel, ou as jovens passistas da Mangueira do Amanhã, que seguirão dizendo no pé, inspiradas no gingado ancestral da comunidade. E que será o motor também de bambas como Luiz Carlos Irineu, o Orelha, de 77 anos, que permanecerá na quadra do Salgueiro, cuidando dos instrumentos da bateria. Afinal, como diz o próximo enredo da escola, samba é resistência, mesmo que ao som de um único surdo de marcação, e carnaval não é só Avenida.

Fonte: Extra on Line

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