qui. out 21st, 2021

Fobia social faz isolamento parecer um alívio, mas escassez de interações pode agravar sintomas

Nem todo mundo lamentou o fechamento dos bares, das praias e das salas de aula. Para algumas pessoas, a vida interditada pela pandemia, que completa um ano rodeada por máscaras, distanciamento e chamadas no Zoom, parecia oferecer, pela primeira vez, um alívio.
Pelo menos foi isso que Julia sentiu quando as primeiras medidas restritivas começaram a valer na cidade de São Paulo, em março de 2020. “Eu estava aliviada porque não ia ter que passar por aquele mar de emoções que era ir só até a faculdade. Ia poder ficar na minha casinha quieta, assistindo aulas no computador”, lembra. A pedido, o seu sobrenome foi omitido.
A estudante de direito de 21 anos pouco frequentava os encontros do curso, mas o motivo passava longe de indisciplina ou falta de tempo. “Não aguentava a socialização, o simples fato de ver as pessoas. Estava naquele nível em que ser reconhecida no corredor ou ver alguém me dar um tchau, era demais para mim”, conta.
O problema não era novo. Desde criança, seus pais e médicos relacionam a sua dificuldade de criar vínculos sociais a uma timidez excessiva. Toda vez que tentava falar com alguém, sentia como se saísse do próprio corpo e apontasse o dedo para si mesma, rindo. Depois de anos de isolamento e bullying na escola, além do início de um quadro de depressão na adolescência , foi diagnosticada com fobia social, ou mais precisamente, transtorno de ansiedade social.
O distúrbio pode ser definido como o medo persistente de se expor e de ser julgado negativamente -e acomete cerca de 13% da população brasileira (em torno de 26 milhões de pessoas), de acordo com dados do Congresso Brasileiro de Psiquiatria.
Marco Abud, psiquiatra e fundador do canal no Youtube Saúde da Mente, explica que a fonte da apreensão não está no outro, “mas na possibilidade de ser humilhada, ridicularizada, [de] que a sua performance seja motivo de chacota”.
E apesar de parecer, quem sofre com a fobia não despreza o contato com os outros. “Normalmente são pessoas que gostariam de poder socializar, o problema é que o medo da rejeição é muito forte”, diz Abud. “Há algo que me causa ameaça, mas ao mesmo tempo é importante para mim.”
Os sintomas costumam surgir na adolescência e, frequentemente, acompanham comorbidades, como depressão, abuso de substâncias e transtornos alimentares. Já as causas vão desde fatores genéticos a comportamentos de replicação de pais e familiares na infância.
Falar, comer, beber em público, interagir com estranhos, aglomerar -as atividades pelas quais tantos anseiam na pandemia são justamente os medos mais comuns aos fóbicos, embora também possam lembrar a timidez clássica.
“A diferença está justamente na intensidade e na duração”, explica a psicóloga Nataly Martinelli.
Segundo ela, tanto na fobia social generalizada, em que a pessoa teme quase todas as situações, quanto nas manifestações mais restritas, há a tendência para a reclusão, pois “o cérebro acaba interpretando as situações como uma ameaça legítima [à integridade]. É lutar ou fugir”, afirma.
A crise do coronavírus, entretanto, trouxe uma nova nuance: pela primeira vez, o isolamento não apenas passaria a ser socialmente aceito, como também momentaneamente incentivado por autoridades de saúde, no esforço de contenção de uma doença.
De repente, o horizonte era o de uma vida mais fácil e confortável, livre das obrigações presenciais.
“A pandemia foi uma espécie de ‘salvamento’ para alguns. Já vi depoimentos de como [fóbicos] se sentem mais confortáveis com a máscara, porque ninguém poderia ver o rosto de ninguém”, conta Bárbara de Oliveira, 33, que tem ansiedade social e administra um grupo sobre o tema no Facebook, com mais de 8 mil membros.
O tradutor João Augusto, 30, concorda. “Dá a sensação de que estou mais protegido, menos exposto aos olhares alheios e isso aumenta a confiança.” E pontua: “O isolamento já era algo que o fóbico social vivenciava ou gostaria de desfrutar”.
Apesar do receio de contrair a Covid-19, Lili Marinho, 42, afirma que o período tem sido tudo de bom. “Se fosse o contrário, ou seja, se tivéssemos que ficar na rua o dia inteiro, aí sim eu iria achar muito ruim.” Há 6 anos, ela escreve o blog “Sou Fóbica Social”, onde pôde alcançar muitas pessoas que sofriam com o distúrbio.
Os encontros deram luz a um grupo no WhatsApp, que hoje tem em torno de 100 participantes. Lili (o nome é fictício) diz que, por lá, a satisfação com o momento não é unânime: “Algumas pessoas do grupo dizem que se sentem muito mais isoladas e, portanto, mais deprimidas.”
O psicólogo Pedro Gouvêa, idealizador da página Ansiedade Social em Foco, explica que no “mundo remoto” os riscos de julgamento e rejeição são muito menores, já que a exposição cai e a evitação mais fácil. Como efeito, os fóbicos podem perder ainda mais as habilidades sociais dada à escassez de relações. “A combinação desses fatores, além da ausência de tratamento, pode ocasionar uma piora do quadro a longo prazo”, diz.
“Não ter nenhuma interação é ruim. Acaba gerando mais ansiedade do que você já tinha. Você está há mais tempo longe de pessoas, há mais tempo dentro de casa”, afirma Bruna Moraes, 30.
Diagnosticada com o transtorno aos 19 anos, ela diz que sente falta do equilíbrio da rotina -em que podia ir ao escritório e fazer exercícios físicos regularmente.
Para Julia, a retração nas habilidades sociais foi mais intensa. “Descobri que não conseguia mais fazer um telefonema para os meus familiares próximos, como a minha avó, a minha mãe e a minha prima -pessoas com quem tinha intimidade. Só de pensar na ideia, já começava a chorar de medo”.
Entre os especialistas, o conselho é unânime, mas pode não agradar: buscar ajuda especializada, resistir à falsa sensação de segurança da quarentena e tentar manter uma vida social minimante ativa, mesmo que de forma virtual e gradativa.
Buscar hobbies prazerosos, cultivar uma rotina, tentar registrar pensamentos negativos e automáticos, voltar a atenção para as interações (e não só para o próprio desempenho ) são outras sugestões que podem ajudar a amenizar a ansiedade.
E quando a pandemia acabar? Segundo Martinelli, o futuro deve ser encarado da mesma forma que o presente, como uma “oportunidade para trabalhar as habilidades sociais, enquanto a maior parte da população está reaprendendo as suas”.

Do Notícias ao Minuto

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