qui. out 21st, 2021

Disco com inéditas de Aldir Blanc traz novas parcerias com João Bosco e Moacyr Luz

Ao perder o marido para a Covid-19, em 4 de maio de 2020, Mari Lúcia de Sá Freire perdeu muito de si mesma. Tinha vivido com o compositor e escritor Aldir Blanc um amor de três décadas — e que parecia, aos mais próximos, concretamente eterno.
Começou a recuperar forças nas cinco semanas, entre dezembro e janeiro, que passou com o neto Pedro no extremo Sul do país. Voltou para o Rio com a palavra “recomeçar” na cabeça. Ao se deparar com um poema de Aldir, o sentimento ganhou vigor. Os versos estão colados no espelho do banheiro da casa onde ela, agora, mora sozinha. A primeira das quatro quadras diz: “Eu não conheço a palavra perder./Tudo que é triste eu torno sublime / de cada morte eu sei renascer/ — a covardia é um crime.”
O poema se chama “Provavelmente em Búzios” por capricho do autor, pois ele foi escrito, de fato, no balneário fluminense, em 1993. Os versos impulsionaram um desejo de Mari: ver letras inéditas de seu companheiro gravadas. O sonho vai se realizar: “Aldir Blanc inédito”, cujas gravações aconteceram de 1º de julho até a semana passada, deve ser lançado nas plataformas digitais e em CD no final de setembro, mês em que Aldir (no dia 2) completaria 75 anos.

Conheça o repertório do disco
“Acalento” (João Bosco, Moacyr Luz e Aldir Blanc) – Ana de Hollanda
“Agora eu sou diretoria” (João Bosco e Aldir Blanc) – João Bosco
“Aqui, daqui” (Joyce Moreno e Aldir Blanc) – Joyce Moreno
“Ator de pantomima” (Sueli Costa e Aldir Blanc) – Sueli Costa
“Baião da Muda” (Moyseis Marques, Nei Lopes e Aldir Blanc) – Moyseis Marques
“Mulher lunar” (Moacyr Luz, Aldir Blanc e Luiz Carlos da Vila) – Moacyr Luz
“Navio negreiro” (Guinga e Aldir Blanc) – Leila Pinheiro
“Outro último desejo” (Clarisse Grova e Aldir Blanc) – Clarisse Grova
“Palácio de lágrimas” (Moacyr Luz e Aldir Blanc) – Maria Bethânia
“Provavelmente em Búzios” (Cristovão Bastos e Aldir Blanc) – Dori Caymmi
“Virulência” (Alexandre Nero, Antonio Saraiva e Aldir Blanc) – Alexandre Nero
“Voo cego” (Leandro Braga e Aldir Blanc) – Chico Buarque
Arranjos de Cristóvão Bastos
O projeto chegou à Biscoito Fino pelas mãos da cantora Ana de Hollanda e de Sônia Lobo, administradora da editora Nossa Música, que é parte da gravadora. Os arranjos couberam a Cristovão Bastos e a direção musical a Jorge Helder. Entre os intérpretes estão Maria Bethânia, Chico Buarque, o ator Alexandre Nero (último a compor com Aldir) e três parceiros fundamentais do poeta: João Bosco, Moacyr Luz e Guinga.
Parte das canções que formam o repertório é fruto de um trabalho que Mari chama de garimpo. As letras que ainda não tinham sido digitadas estavam espalhadas em mais de 30 cadernos. Aldir escrevia à mão e com pouco método. Pegava folhas que sobravam dos cadernos escolares de um dos netos. A caligrafia era a proverbial dos médicos (ele se formou em 1971), e mesmo sua mulher precisa decodificar as palavras. Faz isso na sala da casa ou no escritório onde o ermitão se enfurnava com seus livros — há cerca de 20 mil no apartamento da Tijuca. Nas buscas, encontra ou reencontra bilhetes endereçados a ela.

Fonte: O Globo

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