sáb. set 18th, 2021

Morre Paulo Rafael, guitarrista de Alceu Valença e da banda Ave Sangria

O músico Paulo Rafael morreu, nesta segunda-feira (23), aos 66 anos, por complicações de um câncer no fígado. Ele estava internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, e teve a morte anunciada pela filha, nas redes sociais.
“E com profunda tristeza que comunico que meu pai, nosso amigo, lendário guitarrista e amor da vida da minha mãe, levantou voo”, diz a publicação.
Conhecido por integrar a banda do pernambucano Alceu Valença, Paulo Rafael começou como guitarrista, ainda adolescente, num grupo chamado Phetus, ao lado do cartunista Lailson de Holanda Cavalcanti e do flautista Zé da Flauta. Juntos, faziam uma música sombria com influências do rock progressivo inglês. Eles não chegaram a gravar um disco, mas participaram da cena udigrudi de Recife, que revelou nomes como Zé Ramalho e Lula Côrtes.
O guitarrista passou, então, a integrar o Ave Sangria, banda seminal de rock psicodélico, com quem gravou o cultuado disco autointitulado do grupo, de 1974. Paulo Rafael dividia as guitarras com o lendário Ivson Wanderley, o Ivinho.
Mas nem por isso a contribuição dele à música do grupo foi limitada. Foi ele, por exemplo, quem teve a ideia de colocar um sintetizador Moog na introdução de “Dois Navegantes”, um dos momentos mais lisérgicos do Ave Sangria –e da música brasileira àquela altura.
Quando o disco da banda começou a fazer sucesso, ele foi retirado das lojas pela censura. A razão era a faixa “Seu Waldir”, que narrava uma paixão por um dono de botequim, cantada pelo vocalista Marco Polo, e interpretada pela ditadura militar como uma música gay. Dali, Paulo Rafael seguiu para a banda de Alceu Valença.
Ele passou a tocar com Alceu em 1974, no Festival Abertura, promovido pela TV Globo. Eles apresentaram “Vou Danado pra Catende”, com uma banda que reunia grande parte da cena udigrudi, incluindo vários integrantes do Ave Sangria, Zé da Flauta, Zé Ramalho e Lula Côrtes. Ivinho tocou guitarra, enquanto Paulo Rafael tocou baixo naquela apresentação.
Desde os anos 1970, o guitarrista nunca deixou de tocar com Alceu. A influência de sua guitarra –e do rock psicodélico– pode ser notada especialmente no início da carreira do cantor, com os discos “Molhado de Suor”, de 1974, “Vivo!”, de 1976, e “Espelho Cristalino”, de 1977. A chamada trilogia psicodélica de Alceu tem muito do dedo de Paulo Rafael.
Essa fase foi recentemente revisitada no disco ao vivo “Vivo! Revivo!”, de 2016. Depois da trilogia psicodélica, Alceu foi morar em Paris por um período com Paulo Rafael, quando eles compuseram o disco “Saudade de Pernambuco”. Apesar de feito em 1979, o álbum só foi lançado há alguns anos, na esteira de “Vivo! Revivo”.
O encontro com Alceu também marcou uma evolução na guitarra de Paulo Rafael, que não passou a negar as influências roqueiras, mas incorporá-las ao xote, frevo, maracatu e outros ritmos nordestinos. É verdade que o Ave Sangria já tentava misturar Rolling Stones com baião, mas foi com Alceu que o guitarrista marcou história na música brasileira.
“Anunciação”, talvez a música mais conhecida de Alceu, é guiada pela guitarra estridente de Paulo Rafael. Ele também tocou violão e viola em vários discos e músicas clássicas do cantor –como a introdução inquieta da faixa “Agalopado”.
Além de parcerias com gente como Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, Paulo Rafael gravou alguns discos solo e participou de projetos como o Primavera nos Dentes, de releituras do Secos & Molhados, comandado por Charles Gavin, ex-baterista dos Titãs. É do guitarrista, por exemplo, o arranjo da faixa “Vaca Profana”, de Caetano Veloso, gravada por Gal Costa.
Na última década, Paulo Rafael foi peça fundamental na reunião do Ave Sangria, que voltou a fazer shows pelo Brasil e até lançou o disco “Vendavais”, de 2019, em que a banda regrava músicas compostas nos anos 1970. Com sua morte, os únicos integrantes remanescentes são Marco Polo, vocalista e compositor, e Almir Oliveira, que tocava baixo e também era compositor.
Mesmo com o câncer, Paulo Rafael continuava ativo e como uma espécie de fiel escudeiro de Alceu Valença. Tocou nas lives do cantor e do Grande Encontro, durante a pandemia. Também estava escalado para ser o único parceiro de Alceu no terceiro álbum pandêmico do cantor, depois de “Sem Pensar no Amanhã” e “Saudade” –gravados apenas por Alceu, no formato voz e violão–, lançados este ano.

Da Agência Brasil

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