{"id":49854,"date":"2026-01-31T13:43:51","date_gmt":"2026-01-31T16:43:51","guid":{"rendered":"http:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/?p=49854"},"modified":"2026-01-31T13:43:53","modified_gmt":"2026-01-31T16:43:53","slug":"adultizacao-e-adultocentrismo-a-morte-da-infancia-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/2026\/01\/31\/adultizacao-e-adultocentrismo-a-morte-da-infancia-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Adultiza\u00e7\u00e3o e adultocentrismo: a morte da inf\u00e2ncia no s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Especialista alerta para o apagamento da inf\u00e2ncia em uma sociedade que cobra atitudes adultas de crian\u00e7as cada vez mais cedo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A inf\u00e2ncia, tradicionalmente vista como uma fase de descobertas, brincadeiras e aprendizado, vem perdendo espa\u00e7o para comportamentos, responsabilidades e press\u00f5es t\u00edpicas da vida adulta. Esse fen\u00f4meno, conhecido como adultiza\u00e7\u00e3o, tem preocupado especialistas, que alertam para o avan\u00e7o de uma cultura adultoc\u00eantrica, na qual crian\u00e7as s\u00e3o cobradas a agir, pensar e se comportar como adultos, em um ritmo cada vez mais acelerado.<br>Embora o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA) tenha completado 35 anos, ainda h\u00e1 um abismo entre o que est\u00e1 previsto em lei e o que se observa na pr\u00e1tica. \u201cO ECA representou um marco civilizat\u00f3rio ao reconhecer crian\u00e7as e adolescentes como sujeitos de direitos, mas o adultocentrismo ainda molda a forma como nos relacionamos com eles\u201d, explica a advogada e professora de direito p\u00fablico da Est\u00e1cio Carolina Freitas. \u201cEm muitos lares e institui\u00e7\u00f5es, a crian\u00e7a continua sendo vista como algu\u00e9m em forma\u00e7\u00e3o, um \u2018vir a ser\u2019, e n\u00e3o como uma pessoa plena, com voz e singularidade.\u201d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"576\" height=\"1024\" data-attachment-id=\"49855\" data-permalink=\"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/2026\/01\/31\/adultizacao-e-adultocentrismo-a-morte-da-infancia-no-seculo-xxi\/whatsapp-image-2026-01-30-at-14-25-32\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-30-at-14.25.32.jpeg?fit=900%2C1600&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"900,1600\" data-comments-opened=\"0\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"WhatsApp Image 2026-01-30 at 14.25.32\" data-image-description=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-30-at-14.25.32.jpeg?fit=169%2C300&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-30-at-14.25.32.jpeg?fit=576%2C1024&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-30-at-14.25.32.jpeg?resize=576%2C1024\" alt=\"\" class=\"wp-image-49855\" style=\"width:177px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-30-at-14.25.32.jpeg?resize=576%2C1024&amp;ssl=1 576w, https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-30-at-14.25.32.jpeg?resize=169%2C300&amp;ssl=1 169w, https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-30-at-14.25.32.jpeg?resize=768%2C1365&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-30-at-14.25.32.jpeg?resize=864%2C1536&amp;ssl=1 864w, https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-30-at-14.25.32.jpeg?w=900&amp;ssl=1 900w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>De acordo com Freitas, o adultocentrismo, a centralidade do olhar adulto nas rela\u00e7\u00f5es sociais, \u00e9 um dos pilares que sustentam a adultiza\u00e7\u00e3o. \u201cQuando a inf\u00e2ncia \u00e9 tratada como uma etapa apenas preparat\u00f3ria, ela perde legitimidade como uma fase com cultura e l\u00f3gica pr\u00f3prias\u201d, aponta. Essa l\u00f3gica se manifesta tanto nas exig\u00eancias de desempenho escolar precoce quanto nas cobran\u00e7as comportamentais e est\u00e9ticas que empurram as crian\u00e7as para um universo adulto antes da hora.<br>As redes sociais intensificaram esse processo. \u201cA monetiza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, t\u00edpica das plataformas digitais, transformou a exposi\u00e7\u00e3o infantil em produto. \u00c9 comum vermos crian\u00e7as atuando como influenciadores, reproduzindo discursos e comportamentos que pertencem ao mundo adulto\u201d, afirma. Segundo ela, isso n\u00e3o apenas fragiliza a forma\u00e7\u00e3o emocional, mas tamb\u00e9m interfere na constru\u00e7\u00e3o da identidade e da autoestima.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um problema cultural, n\u00e3o apenas jur\u00eddico<br><\/strong>Historicamente, a inf\u00e2ncia nem sempre foi reconhecida como categoria social aut\u00f4noma. At\u00e9 o s\u00e9culo XX, o Estado intervinha apenas em casos de abandono, marginaliza\u00e7\u00e3o ou<br>criminalidade infantil. Foi a partir da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e do ECA, em 1990, que o Brasil passou a tratar todas as crian\u00e7as e adolescentes como pessoas com direitos fundamentais.<br>No entanto, a professora ressalta que a mudan\u00e7a legal n\u00e3o garante automaticamente uma transforma\u00e7\u00e3o cultural. \u201cO Direito pode criar normas, mas \u00e9 a cultura que define comportamentos. E a nossa cultura ainda \u00e9 fortemente adultoc\u00eantrica\u201d, pontua. \u201cContinuamos acreditando que os adultos sabem sempre o que \u00e9 melhor para as crian\u00e7as, e isso limita sua participa\u00e7\u00e3o, autonomia e escuta.\u201d<br>A pesquisadora cita dados preocupantes sobre viol\u00eancia e explora\u00e7\u00e3o infantojuvenil. \u201cO Brasil ocupa posi\u00e7\u00f5es alarmantes em \u00edndices de viol\u00eancia contra menores. Isso mostra que, embora defendamos o discurso da prote\u00e7\u00e3o, continuamos a tratar a crian\u00e7a como objeto \u2014 seja de cuidado, de consumo ou de controle.\u201d<br>Entre os desdobramentos mais vis\u00edveis da adultiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 a erotiza\u00e7\u00e3o infantil. Em busca de curtidas e engajamento, muitas fam\u00edlias acabam expondo filhos pequenos em contextos inapropriados. \u201cAs redes criaram uma est\u00e9tica da performance, e a inf\u00e2ncia foi tragada por ela\u201d, afirma Freitas. \u201cA crian\u00e7a \u00e9 estimulada a se comportar como um miniadulto: maquiada, sexualizada, opinando sobre temas que n\u00e3o compreende e vivendo sob a l\u00f3gica da audi\u00eancia.\u201d<br>Essa antecipa\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is adultos traz consequ\u00eancias emocionais s\u00e9rias. Pesquisas indicam aumento de ansiedade, depress\u00e3o e dist\u00farbios de imagem em meninas e meninos que crescem sob press\u00e3o est\u00e9tica e social. \u201cQuando uma crian\u00e7a se v\u00ea obrigada a atender expectativas que n\u00e3o correspondem \u00e0 sua fase de desenvolvimento, ela deixa de viver sua inf\u00e2ncia plenamente \u2014 e isso \u00e9 uma forma silenciosa de viol\u00eancia simb\u00f3lica\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ECA Digital e novos desafios<br><\/strong>Diante do avan\u00e7o desse cen\u00e1rio, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei n\u00ba 2.628\/2022, conhecido como \u201cECA Digital\u201d, que busca atualizar o Estatuto para o ambiente online. A proposta prev\u00ea mecanismos de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia nas redes, como controle parental, classifica\u00e7\u00e3o indicativa e responsabilidade das plataformas quanto \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o e sexualiza\u00e7\u00e3o de menores.<br>\u201c\u00c9 uma tentativa de trazer para o ambiente digital o mesmo princ\u00edpio da prote\u00e7\u00e3o integral que o ECA consolidou h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas\u201d, explica a professora. \u201cMas, mais do que criar leis, precisamos reconstruir nossa forma de enxergar a inf\u00e2ncia. N\u00e3o basta proteger, \u00e9 preciso reconhecer a crian\u00e7a como sujeito ativo na constru\u00e7\u00e3o da realidade.\u201d<br>Para Carolina Freitas, combater a adultiza\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de resgatar o valor da inf\u00e2ncia como experi\u00eancia \u00fanica e insubstitu\u00edvel. \u201cA morte da inf\u00e2ncia acontece quando deixamos de valorizar o brincar, o imaginar, o errar e o descobrir \u2014 aspectos fundamentais para o desenvolvimento humano\u201d, afirma.<br>Ela conclui com um alerta: \u201cA sociedade que mata a inf\u00e2ncia mata parte de si mesma. Quando empurramos nossas crian\u00e7as para o mundo adulto antes da hora, perdemos a chance de conviver com o olhar mais puro e criativo que existe. Resgatar a inf\u00e2ncia \u00e9 um ato de resist\u00eancia \u00e9tica e cultural.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialista alerta para o apagamento da inf\u00e2ncia em uma sociedade que cobra atitudes adultas de<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":14860,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":"","footnotes":"","jetpack_publicize_message":""},"categories":[2],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i1.wp.com\/jornaldeitaipava.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/infancia.jpg?fit=587%2C382&ssl=1","jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49854"}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49854"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49854\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49856,"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49854\/revisions\/49856"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14860"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldeitaipava.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}