Especialista alerta para o apagamento da infância em uma sociedade que cobra atitudes adultas de crianças cada vez mais cedo
A infância, tradicionalmente vista como uma fase de descobertas, brincadeiras e aprendizado, vem perdendo espaço para comportamentos, responsabilidades e pressões típicas da vida adulta. Esse fenômeno, conhecido como adultização, tem preocupado especialistas, que alertam para o avanço de uma cultura adultocêntrica, na qual crianças são cobradas a agir, pensar e se comportar como adultos, em um ritmo cada vez mais acelerado.
Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) tenha completado 35 anos, ainda há um abismo entre o que está previsto em lei e o que se observa na prática. “O ECA representou um marco civilizatório ao reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, mas o adultocentrismo ainda molda a forma como nos relacionamos com eles”, explica a advogada e professora de direito público da Estácio Carolina Freitas. “Em muitos lares e instituições, a criança continua sendo vista como alguém em formação, um ‘vir a ser’, e não como uma pessoa plena, com voz e singularidade.”

De acordo com Freitas, o adultocentrismo, a centralidade do olhar adulto nas relações sociais, é um dos pilares que sustentam a adultização. “Quando a infância é tratada como uma etapa apenas preparatória, ela perde legitimidade como uma fase com cultura e lógica próprias”, aponta. Essa lógica se manifesta tanto nas exigências de desempenho escolar precoce quanto nas cobranças comportamentais e estéticas que empurram as crianças para um universo adulto antes da hora.
As redes sociais intensificaram esse processo. “A monetização da atenção, típica das plataformas digitais, transformou a exposição infantil em produto. É comum vermos crianças atuando como influenciadores, reproduzindo discursos e comportamentos que pertencem ao mundo adulto”, afirma. Segundo ela, isso não apenas fragiliza a formação emocional, mas também interfere na construção da identidade e da autoestima.
Um problema cultural, não apenas jurídico
Historicamente, a infância nem sempre foi reconhecida como categoria social autônoma. Até o século XX, o Estado intervinha apenas em casos de abandono, marginalização ou
criminalidade infantil. Foi a partir da Constituição de 1988 e do ECA, em 1990, que o Brasil passou a tratar todas as crianças e adolescentes como pessoas com direitos fundamentais.
No entanto, a professora ressalta que a mudança legal não garante automaticamente uma transformação cultural. “O Direito pode criar normas, mas é a cultura que define comportamentos. E a nossa cultura ainda é fortemente adultocêntrica”, pontua. “Continuamos acreditando que os adultos sabem sempre o que é melhor para as crianças, e isso limita sua participação, autonomia e escuta.”
A pesquisadora cita dados preocupantes sobre violência e exploração infantojuvenil. “O Brasil ocupa posições alarmantes em índices de violência contra menores. Isso mostra que, embora defendamos o discurso da proteção, continuamos a tratar a criança como objeto — seja de cuidado, de consumo ou de controle.”
Entre os desdobramentos mais visíveis da adultização está a erotização infantil. Em busca de curtidas e engajamento, muitas famílias acabam expondo filhos pequenos em contextos inapropriados. “As redes criaram uma estética da performance, e a infância foi tragada por ela”, afirma Freitas. “A criança é estimulada a se comportar como um miniadulto: maquiada, sexualizada, opinando sobre temas que não compreende e vivendo sob a lógica da audiência.”
Essa antecipação de papéis adultos traz consequências emocionais sérias. Pesquisas indicam aumento de ansiedade, depressão e distúrbios de imagem em meninas e meninos que crescem sob pressão estética e social. “Quando uma criança se vê obrigada a atender expectativas que não correspondem à sua fase de desenvolvimento, ela deixa de viver sua infância plenamente — e isso é uma forma silenciosa de violência simbólica”, destaca.
ECA Digital e novos desafios
Diante do avanço desse cenário, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 2.628/2022, conhecido como “ECA Digital”, que busca atualizar o Estatuto para o ambiente online. A proposta prevê mecanismos de proteção à infância nas redes, como controle parental, classificação indicativa e responsabilidade das plataformas quanto à exposição e sexualização de menores.
“É uma tentativa de trazer para o ambiente digital o mesmo princípio da proteção integral que o ECA consolidou há três décadas”, explica a professora. “Mas, mais do que criar leis, precisamos reconstruir nossa forma de enxergar a infância. Não basta proteger, é preciso reconhecer a criança como sujeito ativo na construção da realidade.”
Para Carolina Freitas, combater a adultização é também uma forma de resgatar o valor da infância como experiência única e insubstituível. “A morte da infância acontece quando deixamos de valorizar o brincar, o imaginar, o errar e o descobrir — aspectos fundamentais para o desenvolvimento humano”, afirma.
Ela conclui com um alerta: “A sociedade que mata a infância mata parte de si mesma. Quando empurramos nossas crianças para o mundo adulto antes da hora, perdemos a chance de conviver com o olhar mais puro e criativo que existe. Resgatar a infância é um ato de resistência ética e cultural.”
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