Parar de fumar é uma das decisões de maior impacto positivo para o sistema cardiovascular mesmo após muitos anos de uso do cigarro, alerta cardiologista do Hospital Santa Teresa
Após um período de cinco anos de estagnação, o número de fumantes brasileiros aumentou 25% em 2024. Os dados são da pesquisa anual da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel). Segundo o Dr. Nélio Gomes, cardiologista do Hospital Santa Teresa, o cigarro é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, já que a fumaça contém milhares de substâncias químicas tóxicas, incluindo a nicotina e o monóxido de carbono, que causam danos diretos aos vasos sanguíneos e ao coração.
De forma geral, a nicotina eleva a pressão arterial e a frequência cardíaca, fazendo o coração trabalhar mais intensamente. Já o monóxido de carbono reduz a capacidade do sangue de transportar oxigênio. O cigarro também provoca inflamação das artérias, favorece o acúmulo de gordura nas paredes dos vasos (aterosclerose) e aumenta a tendência à formação de coágulos. “Na prática, isso significa que as artérias coronárias podem se estreitar ou entupir mais facilmente e, quando ocorre uma obstrução súbita do fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco, acontece o infarto. Mesmo quem fuma poucos cigarros por dia apresenta aumento importante do risco cardiovascular. Além disso, a exposição passiva à fumaça também traz prejuízos”, explica o médico.
Nos últimos anos, o uso de cigarros eletrônicos (conhecidos como vapes, pods ou e-cigarettes) também aumentou entre os adolescentes brasileiros. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 aponta um crescimento de 16,8%, em 2019, para 29,6%, em 2024. De acordo com o Dr. Nélio, esses dispositivos geram riscos relevantes para a saúde cardiovascular e pulmonar, causando inflamação, lesão nos vasos sanguíneos, aumento da pressão arterial e alterações da função cardíaca. Por mais que ainda exista muita pesquisa em andamento sobre os efeitos de longo prazo, os cigarros eletrônicos liberam nicotina em altas concentrações e diversas substâncias químicas potencialmente tóxicas. “Em alguns casos, os vapes conseguem entregar doses de nicotina até maiores do que o cigarro tradicional, aumentando o potencial de dependência. Outro ponto preocupante é a falsa percepção de segurança entre os jovens, o que facilita o uso frequente e prolongado. Do ponto de vista médico, não existe recomendação do vape como ‘alternativa saudável’ ao cigarro”, esclarece o cardiologista do Hospital Santa Teresa.
O tabagismo é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Para deixar de ser fumante, o indivíduo precisa passar por um longo processo com inúmeros desafios, que vão muito além da força de vontade de cada um. Algumas pessoas conseguem interromper o uso de forma isolada e sem nenhum tipo de auxílio, especialmente quando o grau de dependência é menor. Porém, para a maioria dos fumantes, o cigarro envolve dependência física, psicológica e comportamental. Por isso, o tratamento estruturado amplia significativamente as taxas de sucesso. Para começar, o primeiro passo é reconhecer a própria dependência e tomar a decisão individual de parar, estabelecendo uma data limite. Para o especialista, o acompanhamento médico costuma ser o caminho mais eficaz e o tratamento pode incluir orientação profissional, apoio psicológico e, quando indicado, medicações específicas ou terapia de reposição de nicotina. Essas estratégias ajudam a reduzir os sintomas de abstinência, ansiedade e recaídas. Outros hábitos, como a prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, sono de qualidade, redução do consumo de álcool, controle da pressão arterial, do diabetes e colesterol, assim como o manejo do estresse, também são benéficos para a jornada do paciente.
Depois que o último cigarro é apagado, os benefícios começam a aparecer rapidamente. No primeiro dia, a pressão arterial e a frequência cardíaca já começam a melhorar e, em poucas semanas, a circulação e a função pulmonar apresentam recuperação progressiva. Ainda no primeiro ano, o risco de infarto começa a cair e, em aproximadamente cinco anos, o risco de AVC se aproxima ao de uma pessoa que não fuma. O risco cardiovascular global segue diminuindo ao longo dos anos posteriores e após cerca de 10 a 15 anos, chega próximo ao de uma pessoa que nunca fumou, a depender do tempo e da intensidade do tabagismo prévio. “Parar de fumar é uma das decisões com maior impacto positivo na expectativa e na qualidade de vida cardiovascular. Mesmo após muitos anos de tabagismo, sempre vale a pena interromper o uso”, conclui o cardiologista.
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