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Agosto Lilás: atendimento de saúde pode ser o primeiro passo para a mulher romper o ciclo de violência

Nem sempre a vítima chega dizendo que sofre violência; profissionais podem identificar sinais e oferecer acolhimento e acesso à rede de proteção

Durante a consulta por uma dor, uma lesão, uma crise de ansiedade, insônia ou, até mesmo, em um atendimento de rotina, o profissional de saúde pode identificar sinais de que a mulher esteja sofrendo algum tipo de violência, mesmo que ela não consiga ou não se sinta segura para falar sobre o assunto.

Neste Agosto Lilás, mês de conscientização pelo fim da violência contra a mulher, a atenção se volta também para o papel dos serviços de saúde na identificação e no acolhimento dessas situações. O atendimento pode representar uma das primeiras oportunidades para que a vítima encontre escuta, orientação e acesso a uma rede de proteção.

De acordo com Juliana Cezário, enfermeira da Atenção Primária em Saúde e docente da Estácio, o silêncio durante o atendimento não significa necessariamente que a violência não esteja acontecendo. Medo, vergonha, dependência emocional ou financeira e receio das consequências podem dificultar que a mulher relate espontaneamente o que está vivendo.

“A mulher que sofre violência nem sempre fala abertamente sobre isso quando chega ao serviço de saúde. Há vergonha, receio, medo por detrás dessa situação. Mesmo não sendo culpa da vítima, ela fica temerosa de se abrir com o profissional de saúde”, explica Juliana.

Nesse contexto, a forma como o profissional conduz o atendimento pode fazer diferença. Mais do que fazer perguntas de maneira direta ou pressionar a mulher a revelar uma situação para a qual ainda não está preparada, é fundamental criar um ambiente de confiança, privacidade e segurança, destaca a enfermeira.

“O atendimento pode ser uma oportunidade para escutar sem julgar, acolher sem pressionar e identificar sinais de violência, garantindo privacidade e segurança para que a mulher possa falar quando se sentir preparada”, declara.

Além dos sinais clássicos de violência, o profissional de saúde também pode identificar manifestações psicossomáticas e psicológicas que, embora não sejam necessariamente relacionadas à violência de forma isolada, podem indicar que algo não está bem. Entre elas estão queixas crônicas sem causa aparente, como dores de cabeça frequentes, tonturas, dores abdominais persistentes e fadiga intensa, além de sinais de ansiedade, sintomas depressivos, crises de pânico, insônia e medo constante. A baixa adesão ou o descumprimento recorrente dos tratamentos médicos propostos também pode ser um sinal de alerta.

Questões relacionadas à saúde da mulher, como abortamentos recorrentes, infecções sexualmente transmissíveis e alterações ou dificuldades relacionadas à saúde sexual e reprodutiva, também merecem atenção, principalmente quando aparecem associadas a outros sinais de sofrimento, vulnerabilidade ou suspeita de violência.

“Esses elementos, isoladamente, não significam necessariamente que haja uma situação de violência, mas podem contribuir para que o profissional amplie sua escuta e atenção ao contexto da paciente. Nesses casos, uma escuta atenta e acolhedora por parte do profissional de saúde pode ser fundamental para identificar possíveis situações de violência e oferecer o encaminhamento adequado”, acrescenta Juliana.

A violência contra a mulher pode assumir diferentes formas, incluindo violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Nem sempre ela deixa marcas visíveis e pode ocorrer de maneira silenciosa e repetida. Por isso, sintomas físicos e emocionais apresentados durante um atendimento podem estar relacionados a uma situação de violência, ainda que a paciente não faça essa associação ou não consiga verbalizá-la naquele momento.

O profissional de saúde, portanto, tem um papel que vai além do tratamento imediato de uma dor ou lesão. O acolhimento adequado pode ser uma porta de entrada para que a mulher conheça seus direitos e tenha acesso aos serviços que compõem a rede de proteção.

“Não cabe ao profissional perguntar de forma acusatória ou exigir que ela conte tudo. Cabe criar um ambiente em que ela perceba que ali ela pode falar abertamente sobre a situação em que ela se encontra”, afirma a profissional.

A possibilidade de acolhimento também está presente em diferentes portas de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), desde unidades básicas de saúde até serviços de emergência e atendimentos especializados. Dessa forma, uma consulta que inicialmente não esteja relacionada à violência pode se transformar em uma oportunidade de escuta e orientação.

O Agosto Lilás também marca duas décadas da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 e considerada um marco no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. Apesar dos avanços alcançados desde então, permanecem desafios relacionados à prevenção, ao reconhecimento das diferentes formas de violência e ao fortalecimento das redes de atendimento e proteção. Para Juliana, reconhecer a violência como uma questão que também atravessa a saúde é fundamental para ampliar as possibilidades de cuidado e proteção.

“Faz 20 anos que a Lei Maria da Penha foi sancionada e já vencemos muitos obstáculos, mas ainda há muitos desafios a serem enfrentados. Às vezes, o primeiro passo para romper o ciclo da violência começa em uma simples consulta. Violência contra a mulher não é problema privado, é uma questão de saúde pública e de direitos humanos.”, conclui a docente.

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